Guitar Hero, a milionária franchise da ActiBlizzard, decidiu trilhar os caminhos desbravados por
Rock Band, passando de uma mera guitarra a um conjunto completo de instrumentos, com voz, guitarras e bateria. Os verdadeiramente indispensáveis para qualquer banda de garagem que se preze. E foi mesmo preciso deslocarmo-nos a uma destas garagens, onde pudemos encontrar tanto World Tour como Rock Band 2 nas suas versões completamente apetrechadas. Um privilégio e uma raridade, pois se serão poucos os que se prestarão a gastar centenas de euros nos dois
bundles, muito menos aqueles que arriscarão em trazê-los de fora, dado que no caso de Rock Band, o jogo não chegou a estar disponível em Portugal e não há certezas quanto à sua sequela.
Mas antes desta tarde completamente a "esgalhar", estivemos uma manhã na Ecofilmes onde demos os primeiros passos em
World Tour. Com
mais de 80 músicas oficiais passando por todos os géneros do rock e mordiscando aqui e ali o metal e a pop, Guitar Hero: World Tour apresenta um mix capaz de agradar a qualquer fã da música comercial e certamente muitos serão aqueles que encontrarão a sua melodia preferida.
Poderá causar alguma confusão um jogo com Guitar no nome colocar-nos em mãos
uma bateria e um microfone, mas assim que a diversão começa o título deixa de interessar. No entanto, comecemos pela guitarra. Mais pesada, com um novo conjunto de botões e a realocação de outros, está preparada para os novos desafios que a pista de notas apresenta. Por exemplo, agora existem
secções de notas interligadas para imitar os
slides e
tapping e que exigem uma imitação condigna na guitarra. Mesmo sendo possível fazê-lo nos botões normais, este novo conjunto sensível ao toque está melhor apetrechado para esse efeito devido à proximidade entre os botões.
A guitarra é talvez o instrumento que menos se destaca pela positiva em relação aos de Rock Band 2, pois todos os outros
são nitidamente superiores. A bateria de World Tour dá uma verdadeira abada, muito mais máscula e com um som potente, dá gosto entregar-lhe genuínas pancadas a tocar
System of a Down ou
Linkin Park, entre outros. O pedal é que podia ter outra consistência e é certamente a única peça da bateria de Rock Band 2 que traríamos para World Tour. Já no que toca ao microfone, está ao nível do que seria de esperar, sobretudo se têm a experiência de SingStar a moldar-vos a escolha.
Saindo dos instrumentos e entrando nas opções de jogo, apercebemo-nos logo à partida de que
a componente a solo foi largamente negligenciada. O modo Career assenta no costume, levando-nos a vários palcos em busca da fama e do dinheiro que nos permite personalizar o nosso rocker. Não fossem as
extensas opções de personalização que nos vão motivando a progredir, abandonaríamos o jogo a solo tão depressa como Britney Spears abandona os filhos.
No que toca ao multijogador o panorama é radicalmente diferente. Seja online ou offline, até quatro jogadores podem cooperar ou competir. Uma verdadeira
batalha de bandas através da internet. Cada um pode activar o Star Power a qualquer momento, mas como ele é partilhado entre todos há que ter muita coordenação, pois se algum falha uma nota, todo o grupo é afectado e a bonificação esvanece. Todos têm um papel muito especial e até o vocalista nos momentos mortos pode incentivar o público.
Um dos pontos fortes em World Tour não está no público mas para onde eles militam, isto é, os palcos. Alguns criados pelos próprios artistas, apresentam um conjunto muito variado e realista. Só é pena que por vezes as estrelas que sobem ao palco quebrem um pouco a imersão, pois não é nada cativante tocar Lenny Kravitz e ver um loiro a encarnar o músico americano, que como devem saber é bastante escurinho.
Para os veteranos da música electrónica World Tour colocou um mega brinde dentro do pacote: um
estúdio de gravação. Aqui podem criar as vossas próprias músicas (com a excepção da voz) e partilhá-las com o resto do mundo. É uma ferramenta poderosa mas bastante complexa. Se têm experiência em programas estilo FruityLoops, eJay ou até mesmo os velhinhos Trackers dos anos 90, terão uma maior facilidade em entrar no esquema. No entanto, vão desesperar por um rato e um teclado.
Paciência, determinação e alguns conhecimentos básicos sobre música são indispensáveis. Se não os tiverem podem sempre optar por descarregar as melodias de quem os tem e albergar uma infinidade de temas para tocarem.
World Tour é um passo de gigante na franchise Guitar Hero, mas que sobretudo apenas a aproxima de Rock Band. Para a grande maioria dos portugueses que nunca conhecemos o dito cujo, Guitar Hero: World Tour vai parecer a quinquagésima sétima maravilha da música. No entanto,
os trechos musicais continuam a falhar um pouco na naturalidade (algumas notas parecem estar ali só para encher ou aumentar a dificuldade) e num jogo onde os trechos são o cerne de tudo, esperava-se algumas melhorias que tardam em chegar. Sim, sabemos que é possível porque Rock Band fá-lo bem melhor.
World Tour quer aproximar-se da simulação que é Rock Band. É uma espécie de assimetria que se cria entre as duas franchises. A componente da diversão, indispensável para um jogo, está em bom nível em World Tour. A componente da simulação, indispensável num jogo que se baseia em algo real, está em bom nível em Rock Band. Todavia, nenhum deles consegue conjugar os dois pontos ao mesmo nível. Mais divertido, multijogador superior, melhores instrumentos, grande conjunto de músicas e um estúdio que peca apenas pela complexidade e interface que desafia a paciência, acabam por tropeçar no desenho dos níveis, leia-se, trechos de notas, um ponto crucial a dominar quando se dão passos na direcção da simulação.