As memórias que tenho de
The Incredible Machine são daquelas que me acompanharão para toda a vida. Meia dúzia de amigos em torno de um jogo que nos fazia pensar, divertir e gozar com os fracassos alheios. A simplicidade da física em duas dimensões e o singelo objectivo de levar bolas do ponto A até ao ponto B.
World of Goo é a obra de dois ex-empregados da EA, que se dão agora pelo nome de 2D Boy Studios. Usando meras borras, estilo
Gish ou
LocoRoco, o jogo leva-nos desde o mais simples e directo dos desafios, a níveis onde até os licenciados em engenharia civil teriam de puxar todas as aulas de Física onde lhes foram ensinados os
princípios básicos das estruturas.
O objectivo de cada nível é levar as borras do seu ponto de origem até um tubo que as suga para outro local. Cabe ao jogador ligar as borras entre si e
construir uma estrutura que possibilite chegar ao tubo. À partida seria o jogo mais simples do mundo, não entrassem em cena elementos como o peso, movimentos, forças de atrito e até perigos ambientais. Para abrir o leque de possibilidades existem borras pegajosas que se colam aos cenários, borras vermelhas que flutuam e até borras adormecidas que precisam de ser acordadas. Em cada nível existe um limite mínimo de borras que têm de chegar ao tubo, o que significa que não podem desperdiçar tudo. Um conjunto limitado de variáveis mas que
resulta num infindável número de opções.
Os primeiros níveis são relativamente fáceis, servindo sobretudo para aprendermos a lidar com todas as variáveis, mas não as misturando. Construir torres, usar as borras verdes para se escalar superfícies ou as vermelhas para segurarem a estrutura de uma ponte sobre um abismo de espigões. Lições imprescindíveis para despertarem a nossa criatividade. Daqui em diante
a dificuldade escala durante os quatro capítulos que compõe o jogo. Do desperdício de borras passamos para uma quase obsessiva poupança, visto que basta uma utilização indevida para deitar minutos de trabalho por terra. Felizmente, para evitar maiores frustrações, é
possível avançar níveis.
O wiimote funciona na perfeição, tal como o rato na versão para PC. Um dos aspectos mais interessantes de World of Goo é a sua
opção cooperativa. A qualquer altura podem ligar mais três controlos ao jogo e construírem (e sobretudo divertirem-se!) em conjunto. É uma experiência muito mais
interessante e gratificante do que à partida pode parecer. De palminhas nas costas a socos nos braços ou "cachaçadas", verão que rapidamente se torna tão cativante como as tardes da nossa infância passadas a montar legos. Alguns dos níveis são alucinantes e quantas mais cabeças a pensar no assunto melhor.
Com um grafismo extremamente cuidado e nitidamente
desenhado à mão, World of Goo não só é uma experiência espectacular para o cérebro, como também delicia os olhos, e já agora, os ouvidos. Ou não tivesse uma banda sonora que nos remeteu de imediato para obras como
Eduardo Mãos de Tesoura,
O Cavaleiro Sem Cabeça ou
O Estranho Mundo de Jack. Sim, tão boa, tão
intensa e bizarramente melodiosa que ficámos na dúvida se não seria um licenciamento de
Danny Elfman. Não é! É simplesmente mais um excelente trabalho desta equipa.
Se algo falta em World of Goo, é uma opção para criar e descarregar níveis da Internet. Não tem apenas as míseras duas horas de Braid e ainda oferece algum conteúdo adicional e opções multijogador, mas é tão bom que é impossível não nos ficarmos a babar por mais. São, ao lado de Ocarina of Time,
os pontos mais bem gastos que podem investir no WiiWare.
Não são precisos milhões de dólares para se fazer um jogo com craveira para ser considerado
um dos melhores do ano. São precisos sim milhões de neurónios criativos, paciência e humildade para se fazer uma viagem aos primórdios dos videojogos, trazer um conceito e adaptá-lo aos nossos dias, introduzindo tudo o que precisa para ser algo fresco e aliciante. World of Goo fá-lo na perfeição.