Numa altura em que alguns jogadores começam a acusar saturação de jogar videojogos com narrativas idênticas, a Ubisoft apresenta-nos a sua maior aposta para a quadra natalícia deste ano, Assassin's Creed. Um argumento original, cenários enormes e um grafismo de luxo, são estes os pontos fulcrais que a produtora gaulesa utilizou para promover a sua aposta. Será que a soma destes três pontos é suficiente para obtermos uma obra capaz de sobreviver numa altura em que o mercado está a abarrotar com títulos de qualidade?
Antes de vos darmos uma resposta definitiva (se é que ainda não viram a nota final), há que contextualizar a mesma. Vocês vão jogar como Altair, nome que em arábico se traduz por "aquele que voa". Em Assassin's Creed, aquele que voa é também alguém que vive para matar e mata para viver. Como membro da facção Hashshashi, Altair tem como objectivo abater as nove figuras históricas que impulsionaram as cruzadas. Com a acção passada no século XII, mais precisamente no ano de 1191, para executarem os vossos objectivos com sucesso terão que viajar por três cidades: Jerusalém, Damascus e Acre. E em relação ao argumento propriamente dito, compete-vos a vocês descobrirem o resto. A Ubisoft, ao longo de todo o ano de 2007, esforçou-se ao máximo para que o argumento não fosse desvendado, portanto, desvendar em três linhas mais do que o imprescindível para vos situar cronologicamente seria injusto.
Como já foi dito, Altair terá que levar a cabo uma série de assassinatos para que a trama avance. E é aqui que se encontra o cerne de Assassin's Creed: a maneira como a jogabilidade e o desenho dos mapas andam de mãos dadas. Existem duas formas distintas de estar em Assassin's Creed. Podem entrar a matar e tentar fazer disto um Grand Theft Auto: Jerusalém, ou podem vestir, para além da pele de um assassino, a sua essência, o seu carisma e, sobretudo, o seu método de trabalho.
Estudar os movimentos do nosso alvo, escutar informação útil para a sua execução, seguir informadores até becos para lhe surripiar dicas valiosas que nos colocam à hora certa no sítio certo, tudo isto são etapas no método de ceifar a vida a alguém que esteja na nossa lista. E estas etapas levam-nos até um dos pontos mais fortes deste jogo: a exploração dos seus cenários. Inicialmente, terão acesso a áreas algo confinadas, mas quando Assassin's Creed se revela em todo o seu esplendor, o simples acto de explorar os cenários consumirá enormes porções do vosso tempo.
Desde paredes, telhados e torres, tudo está acessível a Altair. Bem ao estilo evidenciado na prática de Parkour, os movimentos do assassino são fluidos e ritmados, o que lhe permite "pairar" sobre os telhados, saltitar por entre edifícios num bailado capaz de orgulhar Raymond e David Belle, dois dos grandes impulsionadores da modalidade. Derradeiramente, subir a altas torres assinaladas como pontos de vigia, sítios onde podem adquirir informação útil sobre o "trabalho" em vigor é brilhante. Lá do cimo, bem lá do alto dessas mesmas torres, chegar a terreno firme é uma experiência que intimida qualquer um. Altair dá um Leap of Faith, Salto de fé em português, e impreterivelmente essa fé faz com que aterre num monte de feno. Mesmo já sabendo o desfecho, a viagem entre o "topo do mundo" e o solo é um momento que acompanhará a vossa memória por vários dias.
Reunida toda a informação necessária, é então chegada a altura de executar o homicídio. Mais uma vez, são vocês que determinam o método a que preferem recorrer. Ou entram a matar, vão a correr atrás do vosso alvo e tiram-lhe a vida em frente a toda a gente, ficando depois à mercê das consequências, ou usam uma abordagem cirúrgica. Para testar o jogo, recorremos a ambas. Foi fácil de perceber que caso optem pela primeira abordagem, Assassin's Creed torna-se repetitivo, acabando por cansar o jogador prematuramente. Contudo, ao termos em atenção todos os pormenores que podem denunciar a nossa presença, ajustamos automaticamente a nossa forma de jogar, descobrindo características novas a cada execução.
As acções que podem ser efectuadas por Altair estão divididas em dois grupos distintos: Low Profile e High Profile. Como o nome indicia, no primeiro grupo estão movimentos como misturarmo-nos no meio da multidão, gentilmente fazendo com que as pessoas se desviem de nós. Já no High Profile, estão as acções em que nos movimentamos com mais agilidade, mas que, consequentemente, chamam mais à atenção.
Conforme vamos progredindo no jogo vamos tendo acesso a novas técnicas de combate e novas armas. Porém, primordialmente, temos ao nosso dispor três armas, nomeadamente, uma espada, uma pequena faca, e uma faca de pulso. Esta última, para além de ser uma das imagens de marca do jogo, é extremamente útil para matarem sem serem detectados por olhares indesejados. Este armamento poderá ser utilizado também para completar algumas tarefas adicionais que Assassin's Creed tem para oferecer, como salvar cidadãos inocentes das mãos de guardas tiranos. A recompensa é sempre útil para a vossa progressão na vossa aventura, seja com a protecção de alguns civis contra guardas, ou com grupos de monges vestidos de maneira idêntica à de Altair, o que faz com que seja mais fácil desaparecer no meio da confusão.
Tecnicamente, é impressionante ver como os estúdios da Ubisoft Montreal conseguiram programar um jogo que, mesmo com tantos pormenores, é extremamente fluido. A distância de desenho é gigantesca, os loadings são escassos e, seja nos telhados ou nas ruas, existem pormenores novos de cada vez que visitamos aqueles locais. Uma vez que é um jogo de época, as vestes dos transeuntes, o seu comércio, os discursos em hasta pública, tudo está presente em Assassin's Creed e ajuda a criar um ambiente convincente.
Todavia, temos que fazer um reparo à versão para PlayStation 3. Por vezes, nota-se um ligeiro atraso no carregamento de algumas texturas. Isto não interfere de maneira alguma com o decorrer das actividades de Altair, mas não deixa de ser algo irritante chegarmos perto de uma parede e depararmo-nos com um "pop up".
No campo sonoro, conseguiram-se recriar os sons ambientes daquela época. Desde o chilrear dos pássaros até ao apregoar dos comerciantes locais, ou a senhoras que vos pedem esmolas, todo este trabalho na vocalização de Assassin's Creed confere-lhe uma maior credibilidade. Só estranhamos que em pleno século XII, numa cidade como Damascus…se falasse Inglês tão correctamente.
Assassin's Creed é aquilo que quiserem fazer dele. Lutem como um assassino profissional e vão ter uma experiência variada, com mais de duas dezenas de horas de entretenimento. Se optarem por matar sempre da mesma maneira, o jogo tornar-se-á monótono, mas aí a culpa será vossa e não dos criativos da Ubisoft. Sem dúvida um jogo que vos marcará pela ambiência recriada e um excelente ponto de partida para uma nova série.